24 de abril de 2006
Araranguá, minha querida Ararangua!
Pois é! São os caminhos da Cidade das Avenidas que mais me assustam, já que a paisagem teima em reconstruir-se, anos após anos, fazendo desaparecer o barulhento ginásio dos padres, a Boate Eveson, e mais distante ainda, a sorveteira do Tio Crisante com seu sorvete de coco e ameixa inigualáveis, que nenhuma empresa gabaritada conseguiu imitar, da K-bom à mais recente Geloko.
O que dizer então do Cine Rox onde Brigitte Barbot e Sofia Loren duelavam em belezas estonteantes? Era mágico subir por aquelas escadas espaçosas e descer pelas rampas laterais, ainda com o gosto de um Omar Shariff na boca, depois do beijo teatral, misturado ao sabor de uma bala de hortelã ou um gelado Grapetti (quem bebe repete). Eram tantos os sonhos, tantas as preparações para uma vida, no mínimo gloriosa, feita em retalhos cuidadosamente dobrados para a composição do futuro.
Não sei qual a dor mais doída: se a de não poder mais ir ao Cine Rox recriar sonhos, ou se a de perceber que os sonhos eram mesmo só sonhos, como naquelas fitas das atrizes mais belas que a humanidade já viu.
Não sei o que pode doer mais do que não contar mais com a poesia inusitada do Morro Centenário com a cruz onde um moço se enforcou, ou não poder mais andar na roda gigante do Jardim Alcebíades Seara.
Não sei se algo pode doer mais do que ver de longe os apartamentos intrusos, onde minúsculas janelas dão lugar às noites regradas de entrudo e boi-de-mamão, sob o signo da televisão.
É a bela Araranguá que se estilhaça na força do tempo, absorvendo canções de mães e procurando por notícias do Grêmio Fronteira, adoravelmente enfeitado dos anos dourados, com vestidos rodados e cabelos em coque para ser desfeito por algum cupido mais atrevido.
São fotografias do tempo, registradas para sempre na trajetória da alma, invadindo manhãs, tardes e noites da infância e da juventude com sua força inebriante, arrebentando a alma e a emoção de saudades do nunca mais.
Minha Araranguá, tua poesia avassaladora impregna-se de manhãs tecendo em silêncio o misterioso tempo e o distanciamento cada vez maior da vida que um dia tive. Não é sem emoção que reencontro minha rua tão querida, minha casa de dois andares sustentados pela magia da criança que um dia em mim habitou. Não esqueço o pomar da casa, minha mãe de avental a preparar carinho e meu pai, sempre com seus livros e tabuleiros de xadrez a perseguir peões e rainhas para tentar derrubar o rei.
Era a casa azul da Engenheiro Mesquita. Era a cristaleira pesada guardando louças históricas e garrafas de licores coloridos. Eram os sofás azuis e amarelos onde repousavam almofadas de crochê.
Ainda sinto vindo da cozinha o cheirinho delicioso do café confundindo-se com bolinhos de chuva e o miado da gata Mimi. Lá se vão quase quarenta anos de saudades, de pensamentos que se revestem de realidades em busca de um só traço que seja, daquela felicidade que jamais pensaria existir.
Pois é! São os caminhos da Cidade das Avenidas que mais me assustam, já que a paisagem teima em reconstruir-se, anos após anos, fazendo desaparecer o barulhento ginásio dos padres, a Boate Eveson, e mais distante ainda, a sorveteira do Tio Crisante com seu sorvete de coco e ameixa inigualáveis, que nenhuma empresa gabaritada conseguiu imitar, da K-bom à mais recente Geloko.
O que dizer então do Cine Rox onde Brigitte Barbot e Sofia Loren duelavam em belezas estonteantes? Era mágico subir por aquelas escadas espaçosas e descer pelas rampas laterais, ainda com o gosto de um Omar Shariff na boca, depois do beijo teatral, misturado ao sabor de uma bala de hortelã ou um gelado Grapetti (quem bebe repete). Eram tantos os sonhos, tantas as preparações para uma vida, no mínimo gloriosa, feita em retalhos cuidadosamente dobrados para a composição do futuro.
Não sei qual a dor mais doída: se a de não poder mais ir ao Cine Rox recriar sonhos, ou se a de perceber que os sonhos eram mesmo só sonhos, como naquelas fitas das atrizes mais belas que a humanidade já viu.
Não sei o que pode doer mais do que não contar mais com a poesia inusitada do Morro Centenário com a cruz onde um moço se enforcou, ou não poder mais andar na roda gigante do Jardim Alcebíades Seara.
Não sei se algo pode doer mais do que ver de longe os apartamentos intrusos, onde minúsculas janelas dão lugar às noites regradas de entrudo e boi-de-mamão, sob o signo da televisão.
É a bela Araranguá que se estilhaça na força do tempo, absorvendo canções de mães e procurando por notícias do Grêmio Fronteira, adoravelmente enfeitado dos anos dourados, com vestidos rodados e cabelos em coque para ser desfeito por algum cupido mais atrevido.
São fotografias do tempo, registradas para sempre na trajetória da alma, invadindo manhãs, tardes e noites da infância e da juventude com sua força inebriante, arrebentando a alma e a emoção de saudades do nunca mais.
Minha Araranguá, tua poesia avassaladora impregna-se de manhãs tecendo em silêncio o misterioso tempo e o distanciamento cada vez maior da vida que um dia tive. Não é sem emoção que reencontro minha rua tão querida, minha casa de dois andares sustentados pela magia da criança que um dia em mim habitou. Não esqueço o pomar da casa, minha mãe de avental a preparar carinho e meu pai, sempre com seus livros e tabuleiros de xadrez a perseguir peões e rainhas para tentar derrubar o rei.
Era a casa azul da Engenheiro Mesquita. Era a cristaleira pesada guardando louças históricas e garrafas de licores coloridos. Eram os sofás azuis e amarelos onde repousavam almofadas de crochê.
Ainda sinto vindo da cozinha o cheirinho delicioso do café confundindo-se com bolinhos de chuva e o miado da gata Mimi. Lá se vão quase quarenta anos de saudades, de pensamentos que se revestem de realidades em busca de um só traço que seja, daquela felicidade que jamais pensaria existir.
